O BANQUINHO DE XADREZ – Manuela, Isaac, Elisa e Ravi | A Dor de Não Ser Quem É

⏱️ Leitura de 5 minutos | ⚓ Pode provocar reconhecimento doloroso e um estalo de identidade


Todo mundo… fingindo… enquanto dói.

Quatro pessoas. Quatro histórias que nunca couberam nos rótulos que o mundo criou. Um texto sobre saúde emocional e identidade, e a dor de fingir ser alguém que nunca foi.

Para quem nunca se sentiu encaixado… mas nunca teve coragem de parar de fingir.


A Dor de Não Ser Quem É

Manu estava sentada no banquinho de cimento, ainda digerindo a conversa da mesa e o que tinha acabado de admitir pra si mesma.

O vento passava… as folhas balançavam… e, como sempre, a Praça parecia juntar quem precisava ser juntado. Porque parecia que a saúde emocional de cada um… já tinha chegado no limite.

Do nada… Isaac chegou. Sentou do outro lado do banco.

Logo depois… Elisa apareceu, meio sem jeito, mas como quem já tinha marcado o lugar ali.

E por fim… Ravi, com um fone pendurado só numa orelha e a camiseta larga demais pro corpo miúdo, veio e ficou em pé… encostado na árvore.

Nenhum dos quatro tinha combinado nada. Mas… ali estavam.


O silêncio ficou um tempo… Mas foi Isaac que abriu a boca primeiro:
— Cês já perceberam como é cansativo… ter que parecer normal o tempo todo?

Manu levantou os olhos, meio assustada com o encaixe exato das palavras.

Elisa soltou um riso curto, mas sem humor.

— Normal… pra quem, né? Pra mim… é fingir que um dia eu vou querer viver aquele roteiro de namoro, flores e finais felizes que todo mundo espera.

— Pra mim — disse Ravi, ajeitando o cabelo de um lado pro outro, como quem busca um jeito de caber — é ter que escolher uma roupa de “menino” ou de “menina”… quando eu só queria… sei lá… uma roupa.

Isaac respirou fundo.

— E pra mim… foi ser colocado num corpo que não era nem de um… nem de outro… mas que cortaram, costuraram… só pra eu caber numa categoria que… nunca foi minha.

Ele já tinha cogitado procurar uma terapia online… mas a coragem… nunca vinha.

Manu ouviu tudo calada… cada frase batendo mais fundo.
Ela respirou fundo e, sem olhar pra eles, disse:
— Eu… também tô cansada. Cansada de… de parecer a filha perfeita… a amiga hétero… a colega de trabalho que escuta piadas e finge que ri.

Será que a autoaceitação… é mesmo uma meta alcançável?

O silêncio voltou por uns segundos… até que Ravi, com a voz leve mas firme, soltou:
— Engraçado… a gente é tão diferente… mas a dor de fingir… é a mesma. Como se a tal da inclusão social… só existisse no discurso… nunca na vida real.

Isaac assentiu.

Elisa passou a mão no braço de Manu, num gesto rápido de cumplicidade.

Ali… naquele banco… cada um… com sua luta… sua identidade LGBTQIA+ ou sua forma de não caber… mas, pela primeira vez… sem precisar fingir.

Nenhum deles sabia ainda o que fazer com aquela dor.

Mas… pela primeira vez…Ali, naquele banco…Eles já não estavam fingindo.

Na primeira leitura… parece só desabafo.
Na segunda… é impossível não se ver ali.

Quantas versões suas você ainda vai criar… só pra caber?


Tu pode caminhar por onde quiser. Mas se quiseres seguir a trilha como ela foi pensada, aqui, sempre encontrarás o próximo texto e o anterior.

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