A MESA DA PRAÇA – Manuela | Quando a Mentira Vira Peso

⏱️ Leitura de 4 minutos | 🕯️ Pode provocar identificação e confissão interna


Tem momentos em que o corpo confessa… antes da boca conseguir.

Neste texto, acompanhamos Manuela enfrentando o peso de anos de fingimento. Sentada na mesa da praça, ela vive o estalo: eu gosto mesmo é de mulher! Um diálogo interno e externo entre o medo de assumir e o início da aceitação pessoal.

Este texto pode tocar de forma diferente dependendo do momento de descoberta de cada leitora. Pode ser um espelho… ou um gatilho de acolhimento.

Para quem está começando a reconhecer sentimentos que sempre estiveram ali… mas que agora estão ficando impossíveis de ignorar.


Quando a Mentira Vira Peso

Manuela ainda estava meio zonza depois de ouvir o Miguel cantar.

Sentou-se numa das mesas da praça com uma amiga da faculdade que ela tinha encontrado por acaso.

Elas começaram a conversar… meio que tentando falar de qualquer coisa… só pra não ficar aquele silêncio incômodo.

— Nossa… que música foi aquela? — a amiga disse, mexendo no copo de café. — Deu um negócio aqui… — e apontou pro próprio peito.

Manu riu, meio nervosa.
— Acho que mexeu com todo mundo. — respondeu, mexendo nas próprias mãos.

A amiga olhou pra ela com mais atenção.
— Tá tudo bem contigo?

Manu hesitou… Pensou em dizer que estava tudo ótimo. Que era só a TPM. Que era o estresse da faculdade.

Mas… dessa vez… As palavras não saíram.

Ficou só mexendo na borda do copo. Até que soltou um meio-desabafo:

— Sabe quando parece que você tá vivendo num personagem?

Como se… tudo que você faz fosse meio… encenação? Só pra ninguém perceber que tem coisa fora do lugar?

A amiga franziu o cenho.
— Tipo… na faculdade?

— Tipo… na vida inteira.
Silêncio.

A amiga esperou. Deixou ela continuar.

— É como se eu tivesse aprendido a sorrir na hora certa… a dar risada nas piadas certas… a falar o que esperam que eu fale… a gostar do que é “normal” gostar…

Ela respirou fundo. — Só que… eu tô cansada. Sabe? De fingir.

A amiga assentiu… mexendo a colherzinha no café.

— Já pensou em… parar de fingir?

Manu sorriu torto.

— E fazer o quê? Insegurança emocional gritando… — Ela travou. O rosto esquentou. A voz ficou presa na garganta.

A amiga arqueou a sobrancelha.
— Que você…?

Manu abriu a boca pra responder… mas o corpo não deixou. Era como se… a ficha tivesse caído… ali… na frente da amiga… na frente do café… na frente da Praça inteira.

Ela abaixou a cabeça. E sussurrou… baixinho… como se estivesse confessando pra si mesma:
— Eu gosto de mulheres.

Por tanto tempo, Manuela tentou ignorar os sinais… mas agora, a confirmação era inevitável: sou lésbica? A resposta… floresceu no próprio silêncio depois da confissão.

A amiga sorriu. De um jeito que não tinha pena… nem choque… nem julgamento.
Só disse:
— Finalmente saiu do armário, né?

As duas riram. Não era o riso de antes. Era um riso novo. Mais leve. Mais… verdadeiro.

Naquele instante… Manuela sentiu… pela primeira vez… Que o mundo talvez… não fosse desabar… só porque ela decidiu parar de fingir.

Visibilidade lésbica começa com autoaceitação consciente.

Ainda que o mundo se recuse a aceitar. Manuela sabia que era impossível continuar fingindo ser, só porque o outro recusaria crer na verdade que ela carregava sobre si.

Se essa pergunta também ecoa aí dentro… fica. O próximo espaço da Praça talvez traga respostas que você ainda não sabe que precisa.

Como saber se sou lésbica? Como se isso fosse um fato promíscuo, uma doença terminal, uma sentença de morte iminente. Mas não é. Não deve ser. Se você é mulher e ama outra mulher, você é apenas normal.

Anormal é quem decide deixar de viver a própria vida para tentar matar os sonhos, roubar a paz e destruir a verdade que há nos demais seres humano.

Se essa pergunta ainda te persegue, talvez esteja na hora de silenciar as vozes de fora e escutar o que vibra dentro. A resposta nunca é um rótulo — é um reencontro. E reencontro não se força: se permite.


Tu pode caminhar por onde quiser. Mas se quiseres seguir a trilha como ela foi pensada, aqui, sempre encontrarás o próximo texto e o anterior.

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