⏱️ Leitura de 3 minutos | ⚓ Pode provocar reconhecimento, lágrimas e sensação de alívio emocional
Banquinho da Mesa de Xadrez – trilha de Miguel | homem transgênero
A dor da incoerência gritou mais forte que eles.
Como numa terapia online feita de olhares e escuta real, o texto narra o diálogo entre Miguel, um homem trans, e Manuela, uma jovem lésbica. Em um banco de praça, eles compartilham dores, falam de identidade de gênero, saúde emocional e acolhimento.
Eu Sei Que Há um Lugar pra Mim
Ele cantava baixinho.
Violão no colo, corpo relaxado, olhos semiabertos. A melodia não era alta, mas chegava como se tivesse sido escrita ali, pra aquele fim de tarde.
“Mas sei que há um lugar pra mim, pois sou digno de amor…”
This is me… — repetia.
Miguel não reparou quando a menina se aproximou.
Sentou-se do outro lado do banco, em silêncio, como quem já tinha escutado aquela música antes — mas nunca daquele jeito.
— Essa música…
— Hm? — ele ergueu os olhos, levemente surpreso.
— Eu não sabia que ela doía tanto.
— É porque ela não é uma música. É um espelho — ele respondeu. — Cada vez que canto, parece que toco uma parte que ficou esquecida de mim mesmo.
Ela assentiu.
Ficaram em silêncio por alguns segundos. Mas não era um silêncio constrangedor — era daqueles que costuram alguma coisa no ar.
— Eu sou a Manuela — ela disse, com uma voz firme e suave ao mesmo tempo.
— Miguel.
— Eu sei.
Ele sorriu, surpreso de novo.
Ela continuou.
— Te vi outro dia, falando com a Dona Cida. Ela te chama de menino desde sempre.
— É… Ela nunca precisou entender. Só escolheu respeitar. Acho que isso é o que chamam de respeito à diversidade, né?
Manuela mordeu o lábio. Como se estivesse esperando por esse gancho.
— A minha avó me chama de “amiguinha especial da Laura”.
— Laura?
— Minha namorada.
— Hm.
— Mas é como se ela fizesse questão de não saber.
— Às vezes saber é o que desorganiza o mundo delas.
— É, mas dói, né?
Ele concordou. E respondeu devagar:
— Já arqueei os ombros pra caber no que não era meu. Às vezes, tudo o que a gente precisava era de um espaço de escuta, como numa boa terapia online, mas acabava buscando refúgio no silêncio.
— Eu me escondi em amizades.
— Eu também.
— Até que amar deixou de ser segredo… e virou culpa.
— Pra mim, até que viver com a minha disforia de gênero deixou de ser silêncio… e virou coragem..
Os dois se olharam. Aquele tipo de olhar que, sem saber, já cuida da nossa saúde emocional.
E Miguel falou, quase num sussurro, mas firme:
— A gente não tá errado, Manuela.
— Não mesmo.
Ela olhou pro chão.
Depois pra ele.
— Miguel, será que existe algum lugar onde a gente não precise mais se proteger?
— Talvez não seja só um lugar. Talvez seja também uma gente.
— Uma gente?
— É. Um povo que também cansou de fingir.
Manuela sorriu.
Um daqueles sorrisos que não querem convencer, só agradecer.
Ele voltou pro violão.
“Não há vergonha em ser quem sou…”
E ali ficaram.
Sem pressa.
Dois jovens num banco de praça, tentando lembrar quem eram antes de aprenderem a se esconder.
Este texto pode tocar de formas diferentes dependendo de onde o leitor está na sua própria jornada de aceitação.
Para quem está no limite emocional entre continuar escondido ou começar a se mostrar. Especialmente para homens trans em processo de autodescoberta.
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